A   a r t e   c o m o   p r á t i c a   e s p i r i t u a l

Meredith Monk

Foto: Erin Koch

Foto: Erin Koch

Em 2010, Dharma/Arte publicará o livro Dharma/arte: a percepção verdadeira, de Chögyam Trungpa, com introdução de Meredith Monk, escrita especialmente para a edição brasileira do livro. Abaixo, trecho do texto de Meredith Monk. Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

Conheci Chögyam Trungpa em Nova York, em 1974, durante uma de suas primeiras palestras na cidade. Devo dizer que o encontro foi um tanto engraçado, porque apenas apertamos as mãos – nada passou pela minha cabeça, nada. Pouco depois, estive um tempo na abadia de Gampo, na Nova Escócia, Canadá. Quando contei a Ane Migme, uma das monjas da abadia, que durante aquele encontro nada havia passado por minha cabeça, ela disse: “Oh, então foi um encontro muito bom: ele lhe mostrou a brecha, e isso é muito auspicioso”.

Os assistentes de Trungpa haviam feito uma longa explicação sobre meu trabalho: que se tratava de música como meditação, teatro budista etc., mas no exato momento em que olhamos um para o outro, todas as minhas “realizações” pareceram sem importância. Meu pensamento ficou paralisado; sabia que não havia nada que pudesse dizer com exatidão. Isso foi muito instintivo, porque até então não estudara nada do budismo, não realizara nenhuma prática formal, mas tive a sensação de que meu palavreado conceitual era irrelevante. Literalmente, fiquei sem palavras.

Assim foi meu primeiro encontro com Trungpa. Mais tarde, ensinei no Naropa Institute durante os verões de 1975, 1976 e 1978. Nós nos encontrávamos, mas nunca passei muito tempo com ele. Fui a todas as suas palestas nas semanas em que estive lá. Naquela época, sentia-me parte da comunidade artística, e era cética quanto a religiões organizadas. Andava sempre nas margens. No entanto, o que era surpreendente em Trungpa Rinpoche era o fato de ter encontrado uma enorme variedade de formas para atingir a mente ocidental, e a arte era definitivamente uma delas. Outra forma que ele criou foram os Kasung, para os que estavam mais interessados em um tipo de disciplina militar que servisse de foco para sua energia e, ao mesmo tempo, os suavizasse interiormente de uma maneira precisa, que os envolvesse. Trungpa experimentou muitas maneiras diferentes de transmitir o dharma.

Naquela época, somente a arte era capaz de impressionar-me. Passara toda a vida absorvida em criar arte, era essa a minha prática, minha vida. Por isso, em Naropa, imediatamente me identifiquei com a maneira como as artes se integravam com os estudos budistas e se inspiravam nas aspirações da comunidade. Quando lá me apresentei pela primeira vez, em 1975, tinha consciência de como os espectadores percebiam, e que isso abria um amplo espaço; o que eu apresentava podia ser o que era, não havia a pressão para entreter ou fazer algo diferente daquilo que estava fazendo. Não havia pressa.

Além da eloqüência de Trungpa, a maneira como ele lidava com as perguntas das pessoas e o modo como trabalhava as situações eram também inspiradores. Lembro-me de Gregory Corso, um dos poetas da Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, em Naropa, gritando espontaneamente seus comentários e perguntas. Trungpa sempre tratou as explosões de energia de Gregory como um grande diálogo, verdadeiro e divertido. Admirava como Trungpa sempre trabalhava com o que quer que as pessoas lhe apresentassem. Gregory urrava uma pergunta, e Trungpa urrava uma resposta. Era como uma partida de tênis. Lembro-me também de uma questão com a qual me identifiquei fortemente, morando em Nova York. Um homem disse: “Vivo em Nova York e é muito barulhento. Como devo fazer minha prática de meditação?”. Trungpa respondeu: “Apenas pense que os táxis são macacos”. E acrescentou: “A paisagem de Nova York é feita dos rostos das pessoas”. Quando olho de verdade para o rosto das pessoas, esses rostos são nossas montanhas, nossas árvores e nosso céu em Nova York.

Trungpa criou um forte sentido de comunidade artística na Naropa de meados da década de 1970. Não que o trabalho de todos fosse igual, o que não seria nada bom. Não havia uma sensibilidade única, à qual a arte supostamente devesse se adequar. Havia apenas um compromisso com o processo em si mesmo e com a coragem de nada pressupor. Foi uma época de alegria em Naropa. Todos sentiam que era o começo de um rico florescer de energia. A aspiração era abrir mão de expectativas, ser autêntico e honesto com a experiência. As pessoas tentavam lidar conscientemente com sua surpresa e sua confusão. Havia um sentido compartilhado de excitação e de aventura. Naropa também era um lugar maravilhoso para criar. Estive lá por duas semanas no verão de 1976. Pela manhã, depois de ensinar por três horas, ia até um lindo espaço que antes havia sido uma capela e trabalhava em novas obras. O resultado daquele processo tornou-se “Plateau #1”, que apresentei ao final daquela estada.

Ter conhecido Naropa certamente fez-me pensar com cuidado em como trabalhava com outras pessoas. Depois, em meados da década de 1980, comecei um treino de meditação chamado Aprendizado Shambhala, e isso realmente mudou-me como ser humano. Percebi cada vez mais claramente que não havia separação entre os princípios do fazer artístico e a prática. Sempre tive algum tipo de confiança instintiva em minha visão como artista, mas nos ensinamentos de Trungpa encontrei um lugar onde nutri essa confiança como pessoa.

Os ensinamentos de Shambhala fizeram com que eu desacelerasse mais em meu dia-a-dia. No meu processo de trabalho, sempre fui capaz de começar do vazio, da vacuidade, mas ao sentar-me no metrô, andar pela rua, experimentar os aspectos básicos do dia-a-dia, passei a enxergar de uma maneira diferente, a apreciar os tipos mais comuns de acontecimentos. Quando comecei a trabalhar com esses ensinamentos e práticas, tive consciência de que, encobrindo aquilo que Trungpa chama de nossa “bondade fundamental”, está o sentido de terror do qual ele fala, e muito do que fazemos é uma reação a ele. Nossa agressão tem a ver com o medo. Foi uma revelação descobrir isso em mim mesma.

Como artistas, estamos sempre lidando com esse medo, sempre que começamos uma nova obra, porque então estamos nos permitindo nos expor ao desconhecido. Basicamente, é uma tela em branco, começamos do nada, nada sabemos. Cada vez que criamos uma obra, o medo está sempre lá, sempre o estamos trabalhando, brincando com ele, permitindo que o interesse e a curiosidade pelo que fazemos se torne mais forte que a ansiedade. Então de fato ultrapassamos o medo, e surge um sentido de descoberta.

Por volta da mesma época em que iniciei a prática de Shambhala, em meados da década de 1980, compus uma obra que é uma das maneiras mais diretas de trabalhar essa noção, chamada “Scared song”, basicamente uma música sobre o medo. Era uma obra pouco usual para mim, porque havia fragmentos de texto dentro dela e eu estava lidando com um estado emocional humano muito específico.

Essa prática ajuda-nos a confiar no desconhecido ou na incerteza de nossas paixões e sensações. Penso que é isso que, como artistas, fazemos intuitivamente. Àqueles que não são artistas, ela realmente ajuda a compreender o que é o processo artístico e como isso corresponde ao processo de viver plenamente. Na verdade, pode-se dizer que cada pessoa é um artista no modo como vive sua vida.

Foto: Erin Koch

Foto: Erin Koch

Em Dharma/arte, Trungpa escreveu: “O problema fundamental em qualquer empreendimento artístico é a tendência a separar o artista de seu público e, então, tentar enviar uma mensagem de um a outro. Quando isso acontece, a arte se torna exibicionismo”. Essa é uma afirmação muito complexa, com muitos sentidos. Vemos arte na qual o que há é, acima de tudo, uma exibição do ego. Em certo sentido, a tradição ocidental enfatizou o artista individual como alguém isolado da sociedade, e também uma separação entre arte e vida. Muitas vezes, artistas que criaram obras brilhantes tiveram uma vida sofrida, e daí surgiu um mal-entendido fundamental: que a boa arte, a arte verdadeira, é um produto da neurose. Essa noção floresceu no século XIX e prosseguiu no século XX. Van Gogh e Pollock são dois exemplos que vêm à mente, cada um com uma vida pessoal bastante difícil e, ao mesmo tempo, com obras que refletem e incorporam princípios luminosos do universo. Trungpa provém da cultura tibetana, na qual se enfatizavam técnicas objetivas passadas de geração a geração, e a arte era vista como prática espiritual. Imagino que seu primeiro contato com a abordagem ocidental da “expressividade individual” tenha sido curioso.

Pessoalmente, espero estar oferecendo em minhas obras uma experiência que não seja de nenhum modo manipulativa. É claro que cada pessoa verá, perceberá e ouvirá algo diferente, e nesse sentido se trata, potencialmente, de uma situação aberta para cada um. Obviamente, o material é filtrado por minha própria sensibilidade, que se torna cada vez mais refinada à medida que os anos passam. Em meu trabalho, sempre tento começar do zero, sem pressuposições ou expectativas. É claro que, quanto mais velha me torno, maior é o peso de minha própria história. Mas tento de todas as maneiras colocar a mim mesma em situação de risco, a fim de conservar o frescor do processo. E em cada obra tento oferecer uma experiência expansiva, de múltiplas camadas, que abra espaço para que cada pessoa se relacione com ela à sua própria maneira. Após mergulhar nessa experiência, é possível que alguém perceba aspectos de seu dia-a-dia de uma maneira nova e surpreendente.

Trabalho com pessoas bastante desenvolvidas como artistas vocais, de modo que alguns desses princípios bastante básicos já estão lá. Quando nos apresentamos, estamos muito sensíveis uns aos outros e ao espaço. É algo realmente conjunto, em um sentido profundo. Em nosso trabalho, não se tem, necessariamente, o tipo de gratificação do ego que alguns tipos de espetáculo oferecem, por exemplo, um espetáculo da Broadway, em que nos ensinam a “vender” nosso produto. Você e o produto são separados. Você é muito habilidoso e tem muita personalidade, e em troca recebe um amor instantâneo. No meu trabalho, não há separação entre produto e artista; nós somos a música, o movimento ou o que quer que façamos.

A beleza da situação de uma apresentação ao vivo está na possibilidade do desastre completo, a cada momento. Ao fazer um filme ou gravar um disco, em certo momento podemos cortar tudo aquilo de que não gostamos. E eles se tornam uma forma fixa. Na apresentação ao vivo, no entanto, tudo é real, tempo presente, e vemos as pessoas de cima de uma corda bamba, é essa a nossa experiência. A vulnerabilidade é um aspecto maravilhoso da apresentação ao vivo. O artista existe e todos na platéia existem; estamos todos no mesmo espaço e no mesmo momento. Compartilhamos esse tempo e esse espaço. Em suma, a experiência torna-se como a figura do número 8, um signo do infinito, que apenas vai e vem, vai e vem, dá voltas e retorna.

[...]

Trungpa apontava algo que devemos ter em mente quando criamos: “A obra que estamos fazendo terá algum benefício?”. Os ensinamentos de dharma/arte são muito instigantes; apontam uma consciência do processo em si mesmo e da relação entre o fazer artístico e a prática. Os artistas desenvolvem um sentido pessoal de disciplina no processo de criar suas obras, assim, em certo sentido, os ensinamentos de dharma/arte verbalizam e delineiam algo que é descoberto instintivamente. Mas os ensinamentos são valiosos para que todos tenham consciência dos elementos que existem em cada momento de percepção. Sempre penso em mim mesma, particularmente quando canto, como sendo um condutor dessas energias fundamentais. Como artista, esses ensinamentos foram um rico lembrete da razão pela qual me tornei artista.

Foto: Erin Koch

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© 2010 Dharma/Arte. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização escrita de Dharma/Arte. Trad. Carlos A. Inada.

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A arte como prática espiritual | 2010 | Uncategorized | Tags: , , , , , , | Comente




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