K y u d o:   K a n j u r o   S h i b a t a   S e n s e i,
v i g é s i m o   a r q u e i r o   i m p e r i a l   d o   i m p e r a d o r   d o   J a p ã o

Scott Spanbauer

Foto: Scott SpanbauerFoto: Scott Spanbauer

Na década de 1980, a pedido de Chögyam Trungpa, Kanjuro Shibata Sensei começou a ensinar a arte contemplativa do kyudo (arco-e-flecha japonês) no Ocidente. Um grupo de brasileiros e chilenos planeja iniciar no Brasil e no Chile um grupo de prática regular de kyudo, tal como ensinado por Shibata Sensei. Para informações, escreva para kyudo@dharma.art.br.

Em uma bela manhã de maio, Kanjuro Shibata, Sensei, o vigésimo em uma linhagem de mestres arqueiros* zen, ajoelha-se em frente a seu dojo, ou sala de prática, vestindo um quimono marrom e um vívido hakama, semelhante a uma saia. Ele tem hoje 89 anos, mas parece muito mais jovem. Suas maneiras são formais mas brandas, como as de um avô. A aula regular das manhãs de domingo está terminando, e Sensei (um título que significa “professor”) despede-se de seus alunos no inglês resumido que eles aprendem junto com a forma do kyudo. Há tempos, ele viaja quase o ano todo, conduzindo seminários por todos os Estados Unidos, pelo Canadá e pela Europa. Na manhã seguinte ele partirá para uma nova viagem.

Ele se despede e agradece, então se levanta e diz: “Dasvedanya”, uma lembrança de seus anos em um campo para prisioneiros na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. Sorri e sai pela entrada ensolarada do dojo. A austera estrutura de alvenaria branca é suavizada pelo acréscimo de jardins, pelos passeios emoldurados por madeira, por uma sala de entrada e por uma continuação ao ar livre do kyudojo, de aspecto decididamente japonês, chamada azuchi. Hoje, uma turma de crianças praticou no azuchi.

Além do dojo principal em Boulder, Colorado, Sensei possui grupos subsidiários em Vermont, Boston, Washington, Filadélfia, Nova York e Berkeley, nos Estados Unidos; Halifax, no Canadá; Amsterdam, Viena e Marburg, na Europa, para citar apenas alguns. Ao longo de seu caminho, Sensei conquistou centenas de estudantes, e ele vê a todos como uma “família” estendida.

Seu estilo de ensinar tem algo de cortante, terreno. Embora externamente ele seja um mestre zen que ensina o que chama de “meditação em pé”, muito das instruções de Sensei tem como foco como viver corretamente: colocando as necessidades e o bem-estar dos outros em primeiro lugar. A palavra japonesa para essa perspectiva é rei — literalmente, “comportamento correto”.

Kanjuro Shibata XX Sensei, ou Yoshimune Shibata, nasceu em uma antiga família de samurais em Quioto, a antiga capital do Japão. Munekazu Shibata, o primeiro a conduzir o título Kanjuro Shibata, viveu em meados do século XVI na ilha de Tanegashima, ao sul de Kyushu. Ele e seus antepassados serviram ao clã Shimazu como fabricantes de arcos e arqueiros, recebendo o título de yumishinan, ou mestres arqueiros. Em 1574, mudou-se para Quioto, onde as gerações seguintes continuaram a servir aos xogunatos militares e à nobreza durante a era Tokugawa (1600-1868). Em algum momento, os Kanjuro Shibata receberam do Xogun o título mais honorífico de onyumishi, que significa “mestre fabricante de arcos e arqueiro”, um título que subsequentemente passou de geração a geração.

De acordo com Sensei, a prática da disciplina — kyudo; rei e bushido, o caminho do guerreiro e o código do samurai — foi de suma importância em sua família. Sensei é também rápido ao assinalar que esse tipo de disciplina não é grande coisa: “Quando for comer”, diz, “espere que todos cheguem antes de começar. É natural”. Todavia, ele acha que os ocidentais frequentemente não possuem esse interesse básico, e observa que em uma refeição norte-americana a lógica predominante é “ajude a si mesmo”.

Assim, sentar-se para jantar com Sensei muitas vezes é como uma lição de etiqueta: o convidado, ou Sensei, é sempre servido primeiro, e ninguém começa até que todos sejam servidos, o grupo reunido tenha feito uma reverência e dito: “Itadakemasu” — estou pronto para receber. “Fazer disso algo especial é absurdo”, diz. Ao ser questionado se a ignorância desses hábitos é um entrave ao caminho pessoal, Sensei hesita, não querendo desencorajar estudantes ocidentais, mas continua: “Rei é um ensinamento direto do zen-budismo. É algo muito fundamental, então, sim, é um problema se estudantes ocidentais não possuem essa compreensão.

Shibata Sensei tem a mais alta consideração por duas pessoas, o Vidyadhara, Chögyam Trungpa Rinpoche, que o convidou para ensinar boas maneiras, e kyudo, para seus estudantes budistas norte-americanos em 1980; e Kanjuro Shibata XIX, Muneshige Shibata, seu avô (o pai de Sensei, que ao casar-se entrou na família Shibata, não herdou o título de Kanjuro Shibata, atuando, no entanto, como secretário do sogro, administrando os negócios da família na fabricação de arcos). Aos oito anos de idade, Sensei começou a aprender kyudo e fabricação de arcos com seu avô, que, além de trazer o título de onyumishi, era o arqueiro oficial da família imperial, posição outorgada a Kanjuro Shibatha XVIII pelo imperador Meiji em 1889. Como arqueiro imperial, ele era o responsável por fazer o Goshinpo Yumi, arco sagrado usado para a purificação e consagração do altar em Ise, o principal santuário da religião xintoísta, a cada 20 anos.

O relacionamento de Sensei com o avô era severo. Havia amor entre eles, mas, nas palavras de Sensei, seu avô era “completamente áspero”, não tendo aversão por bater ou dar um tapa quando necessário. De acordo com Sensei, as muitas lições que recebeu de seu avô nunca eram verbais — ele simplesmente mostrava, ordenando que Sensei “olhasse com o coração, não com os olhos”. Foi dessa maneira que Sensei recebeu “todas as joias do coração e da mente [de seu avô]”. Nessa época ele também conheceu o Hagakure, de Yamamoto Tsunetomo, c. 1716, talvez a mais importante obra de literatura samurai. Consistindo em sua maior parte de peculiaridades e máximas breves, o Hagakure, diz Sensei, contém lições supremas: lealdade ao mestre, prontidão para a morte e desapego por esta vida, compaixão pelos outros e uma visão antiintelectual que privilegia a ação baseada no “primeiro pensamento” em detrimento da deliberação.

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Ainda que esses princípios tenham sobrevivido em forma impressa, Sensei diz que a compreensão que as pessoas têm do caminho do samurai é hoje diluída. “Agora, mesmo no Japão, em tudo vem primeiro eu”. Ele enumera cinco importantes princípios samurais: lealdade; comportar-se adequadamente com todos, não importando quem sejam; uma vida de extravagâncias é vã — portanto, não a cultive; desenvolva a confiança entre você mesmo e seus companheiros guerreiros; e tenha coragem — caso contrário, a vida é vã. Sensei acrescenta que o orgulho do bushi, ou guerreiro, 450 anos atrás era o seppuku (suicídio ritual pela estripação, e prova de lealdade, coragem e abnegação). “Na era atual”, continua, “não há mais samurais, assim, não é nada prático abrir a própria barriga.” Questionado se ele próprio não seria um samurai, Sensei insiste: “Ser sensato é ter um coração modesto ao responder a tal questão”.

Aos 20 anos de idade, depois de frequentar a escola militar e a universidade, Sensei foi destacado para o exército e enviado primeiro para a Coreia, então para a Manchúria, onde serviu em uma unidade de artilharia da cavalaria. No fim da guerra, sua unidade foi capturada pelos russos. Em agosto de 1945, ele foi enviado para a Ásia central para um campo de prisioneiros de guerra próximo a Samarcanda, ao norte do Afeganistão. A viagem pela Rússia em carros movidos a gado levou um mês, e as condições no campo eram horríveis. Os homens trabalhavam em uma mina de carvão, comiam sopa de repolho e uma pequena fatia de pão preto duas vezes por dia; à noite, a sopa era reforçada com um pequeno fígado de camelo. De cada dez, um sobreviveu.

Finalmente, no outono de 1948, ele foi libertado e retornou ao Japão. Dois anos depois casou-se, em um casamento combinado por seu avô, e o casamento produziu 2 filhas. Em 1959, Kanjuro Shibata Muneshige morreu, e Sensei assumiu o título de Kanjuro Shibata XX, Onyumishi, com total responsabilidade pela fabricação dos arcos, pelo ensinamento do kyudo e pela realização do Goshinpo Yurni (que teve lugar pela última vez em 1974). Quando sua filha Hiromi se casou com Nobuhiro, seu namorado da época de colégio, Sensei pediu-lhe que assumisse o nome da linhagem Shibata, acontecimento não inusitado — Shibata Sensei XVIII também entrara na família ao casar-se. Sensei começou a treinar Nobuhiro nas artes do kyudo e da fabricação do arco, do mesmo modo como seu avô o ensinara.

Sensei estava crescentemente perturbado pelas mudanças na sociedade japonesa — uma virada em direção ao materialismo que estava rapidamente tornando o kyudo, de uma arte meditativa, um esporte. Em vez de praticar o kyudo como um caminho para “limpar a mente”, muitos estudantes, especialmente aqueles que ele ensinou em uma universidade local, tinham o intento de acertar o alvo. Até hoje, Sensei constantemente exorta seus estudantes a praticarem “kyudo da mente, não kyudo esporte”, e a abrirem mão da esperança e do medo de acertar o alvo. A ênfase em vencer dominante no Japão levou-o a aceitar um convite feito por Trungpa Rinpoche em 1980 para ensinar no Ocidente.

Foi uma decisão pouco usual para alguém da estatura de Sensei, e uma decisão impopular no Japão. Trungpa Rinpoche estivera procurando mestres genuínos de artes contemplativas japonesas, e ouvira a respeito de Sensei através de Kobun Chino Roshi, um mestre zen que residia nos Estados Unidos, por orientação de Suzuki Roshi, autor de Mente zen, mente de principiante, também amigo de Trungpa. O frescor da atitude e a não-competitividade que Sensei encontrou em muitos estudantes de Trungpa o inspiraram a retornar ano após ano, para extensos períodos de ensinamentos. Em 1985, Sensei mudou-se permanentemente para os Estados Unidos.

Agora, ensinando há mais de 20 anos, a qualidade da instrução de Sensei tornou-se mais profunda, à medida que a compreensão de seus estudantes se tornou mais madura. Deslocando a ênfase do shake, ou forma, cada vez mais ele aponta como os estudantes podem juntar mente e meditação, que ele chama de shashin. “Pode ser possível entrar no kyudo apenas através da técnica, mas não é nisso que acredito”, diz. “Se você lança a flecha mu-shin — sem coração —, esse é o coração correto. Isso é zen.”

Frequentemente perguntam a Sensei o que é “mu”. “É como perguntarem: ‘O que é ar?’ ”, ele responde. “Mu é algo que os estudiosos tentam explicar com palavras. Ele precisa ser experimentado através da meditação.” Nos treinamentos para instrutores, Sensei oferece uma crítica detalhada da prática de cada participante. A maioria deles são estudantes mais velhos, e os comentários, que podem ser educadamente reveladores ou devastadores, vão muito além de correções usuais da forma. Durante as aulas, Sensei muitas vezes critica arqueiros proficientes por pensarem demais, e valoriza iniciantes que lançam a flecha com pouca expectativa.

O resultado da prática minuciosa de shake e shashin, diz Sensei, é shahin — dignidade. “Ao final, na verdade você manifesta suprema dignidade.” Kobun Chino Roshi disse certa vez: “Como Shibata Sensei formulou, você não atinge o shahin. O que é polido naturalmente se desdobra como características da própria vida do arqueiro em si mesma. Essas características são vistas não apenas durante o tiro, mas na aparência da pessoa e em como sua vida se manifesta dia após dia”.

A questão maior de como a linhagem de Sensei terá continuidade está apenas começando a ser colocada. Nobuhiro Shibata, que por muitos anos fez todos os arcos da família Shibata, assumirá as linhagens de Kanjuro Shibata, onyumishi e arqueiro imperial, mas expressa pouco desejo de ser um mestre de kyudo. Resta a saber se os ensinamentos de Sensei sobreviverão no Ocidente: “Cabe a cada indivíduo ver se podem fazer isso. Eles compreendem [o kyudo] intelectualmente, mas resta a saber se o compreendem em seu coração”.

Como disse Kobun Chino Roshi: “Sensei abre-se a você, e sem nenhum apego o ensina. Sua mente e corpo como um todo — sua presença — é como uma flecha que vem de tempos antigos. A questão não é a esperança. A questão é que, através da prática longa e genuína, sua dignidade natural como ser humano vem à tona”.

(*) Em português, arqueiro refere-se tanto ao fabricante de arcos (em inglês, bowmaker) como ao seu usuário (archer). Em referência a Shibata Sensei, o termo usado é geralmente bowmaker, na tradução, “arqueiro” — exceto quando o texto se refere simultaneamente a ambas as posições (bowmaker e archer). (N. do T.)

texto_scott3aFoto: Scott Spanbauer

Texto e fotos: © Scott Spanbauer. Todos os direitos reservados. Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com o autor. Trad. Carlos A. Inada.

Este texto foi publicado em língua inglesa por Elephant Journal (www.elephantjournal.com) e é uma versão atualizada e adaptada pelo autor de texto originalmente publicado pela revista Shambhala Sun em 1992.

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Kyudo: Kanjuro Shibata Sensei, vigésimo arqueiro imperial do imperador do Japão | 2009 | Uncategorized | Tags: , , , , , | Comente




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