C r i a n d o   e s p a ç o s   p a r a   a   i n t e l i g ê n c i a   c o l e t i v a

Michael Chender

Foto: Douglas Dickel

Foto: Douglas Dickel

Em sinergia com seu trabalho no campo artístico — baseado na arte contemporânea, na educação contemplativa e no aprendizado experiencial —, Dharma/Arte iniciará em 2010 suas atividades nas áreas de Processos Criativos e Lideranças Autênticas, com o objetivo de promover o diálogo entre a consciência, a atenção e a criatividade nas artes, e a criatividade essencial às diversas iniciativas de inovação social e organizacional.

Para isso, Dharma/Arte trará ao país Michael Chender, um dos fundadores do Shambhala Institute (atualmente, Authentic Leadership in Action Institute, ALIA) e CEO da Metals Economics, uma das mais importantes empresas de consultoria na área de mineração.

Inspirado na visão de Shambhala, linhagem budista iniciada por Chögyam Trungpa, o ALIA é uma instituição da sociedade civil que busca responder à necessidade de novas formas de pensamento que trabalhem os desafios complexos do mundo contemporâneo, que não podem mais ser resolvidos por métodos tradicionais. Atuando em parceria com empresas e outras instituições, o ALIA tem como fundamento o poder da atenção, da escuta e do engajamento em um espaço bem construído na busca de soluções inovadoras.

O texto abaixo trata desse espaço de acolhimento baseado na escuta, e é trecho de um livro que Michael Chender está preparando. Explora a noção de “espaço contenedor”, que segundo Chender é uma das principais contribuições que o ALIA traz a esse diálogo com outras abordagens inovadoras, como a Teoria U, o pensamento sistêmico etc. Essa contribuição procura tornar mais efetivas essas práticas, permitindo a apreciação e o acesso à “visão” que as fundamenta, algo que raramente é explicitado.

Essa visão é a visão da interdependência, da mudança constante, da ausência de pontos de referência para julgamentos, e é poderosa e inspiradora. Para ter acesso a ela, continua Chender, temos de lidar com hábitos e métodos que há muito incorporamos. Para isso precisamos de uma prática pessoal, e podemos dizer que essa prática é a prática pela qual nos tornamos autênticos.

Espaços contenedores e inspiração coletiva

Chamamos de “espaço contenedor” as condições que permitem que indivíduos façam parte de um grupo, desenvolvam a confiança e usem a energia do grupo para ir além de suas próprias limitações. Poderíamos também chamar de “cultura”, mas a expressão “espaço contenedor” possui um sentido de inclusão que pode ser mais fluido. Com um bom espaço contenedor, os ingredientes corretos e algum calor, podemos preparar algo saboroso.

Assim, o espaço contenedor consiste de regras, entendimentos, processos, atitudes, formas e do meio que cria as condições para a riqueza e evolução da colaboração — em um grupo, equipe, organização, comunidade ou sociedade. O que mantém coeso o espaço contenedor é o fato de todas as suas partes refletirem uma visão comum.

Comecemos observando como criamos um espaço contenedor para nós mesmos; pois somente se pudermos entendê-lo em nós é que seremos capazes de aplicar esses princípios de maneira hábil e flexível para os outros. Do contrário, o fato de não agirmos de acordo com nossas palavras minará nossas melhores intenções. Em termos pessoais, o formato de nosso espaço contenedor é nossa visão — como moldamos a experiência. Somos capazes de lidar com o que quer que surja com alguma equanimidade se nosso contenedor é forte o suficiente. Por exemplo, o panorama da bondade fundamental autoriza-nos a lidar com todos os tipos de desafio. Pessoas que passaram por dificuldades inimagináveis na vida, e não apenas sobreviveram mas também cresceram, falam com frequência de fé, ou da importância de ter uma visão ou código pessoal fortes.

A visão ou atitude da autenticidade que buscamos evocar e incorporar — reconhecendo a sabedoria e a capacidade inerentes a nós mesmos e aos outros — é algo natural, fundamental, e contraria muitos hábitos profundamente arraigados. Precisamos ser lembrados disso, e precisamos nos esforçar para desfazer tais hábitos, de maneira a apoiar e aprofundar nossa compreensão.

Podemos observar como isso funciona usando o exemplo da meditação, que é um excelente exemplo de contenedor. Na meditação, estamos simplesmente tentando ver melhor como as coisas são, e permitimos que nossa própria sabedoria e nossa força inata superem as amarras da reatividade, do medo e dos hábitos. No entanto, quando começamos a olhar para nós próprios mais diretamente, muitos de nós experimentamos a resistência a enfrentar nossas ansiedades, arrependimentos, medos etc. Sentimo-nos esmagados; temos medo dos recantos inexplorados de nossa mente. Todos os lembretes tranquilizadores do mundo não mudam isso. Por outro lado, alguns de nós somos tão arrebatados por nossos dramas interiores que acabamos por apenas alimentar e fortalecer nossos hábitos. Para alguns, isso significa dar voltas em torno de uma sensação de fracasso (ou, para os bem-sucedidos, a sensação de ser uma fraude). É por essa razão que geralmente se supõe que “manter-se ocupado” é algo bom, pouco importando se o que nos mantém ocupados não tem sentido.

Precisamos ser capazes de enfrentar nossos desafios sem sermos sugados ou dominados por eles. No caso da meditação, o espaço contenedor é, mais especificamente, a atitude de que nossos pensamentos repetitivos são apenas hábitos mentais que não definem quem somos e que podem ser destituídos de seu poder sobre nós, podemos abrir mão deles, e nossa natureza mais verdadeira contém equanimidade, sabedoria, compaixão, aptidões e alegria.

Acreditar genuinamente em nosso poder e em nossa bondade inerentes pode ser difícil, e o espaço contenedor é expresso com mais precisão de uma maneira muito concreta e experimental na postura e na técnica. Quando estamos sentados em meditação e um pensamento perturbador surge, não nos levantamos, nem contorcemos as mãos, nem damos um tapa na testa e desabamos (ao menos não em público). Ao manter uma postura ereta, podemos estar mascarando uma mente indomada, mas a atitude do corpo começa a influenciar a atividade da mente, e lentamente deixamos de fingir estar relaxados e imperturbáveis e realmente relaxamos. E quando nos observamos remoendo algum ponto, ou em uma fantasia, simplesmente voltamos a prestar atenção à respiração. Ela está sempre lá, sempre fornecendo o próximo trem para deixarmos que a luta aconteça na plataforma. Quanto mais prestamos atenção a esses elementos do contenedor — atitude, postura e técnica —, mais suave e forte se torna o contenedor, e, como resultado, mais a mente pode relaxar. Ela não tem de lutar para impor um limite a coisas que não quer reconhecer porque os elementos do contenedor oferecem a elas um espaço para que surjam de maneira “segura”. Podemos lidar com elas. Se nossa atitude não é forte o suficiente para desarmá-las, as técnicas da postura e da respiração permitem que não sejamos engolidos por elas. À medida que desenvolvemos mais confiança, em contrapartida podemos lidar com maior incerteza, maior abertura, maior diversidade, mais coisas que já consideramos ameaçadoras e que agora se tornam interessantes.

Sentar-se ereto, permanecer quieto e não fazer nada poderiam com razão ser vistas como uma grande perda de tempo, se não existir por trás disso uma visão coerente (neste caso, da bondade fundamental). Além disso, seria algo muito pouco eficiente se as técnicas e as formas não expressarem essa visão, não colaborarem para torná-la real.

Esse jogo entre visão e contenedor também se aplica a grupos. Nesse caso, “visão” é mais do que valores e crenças. Por exemplo, posso ter como valores a honestidade e a integridade, e acreditar que serei recompensado pela vida se praticá-las, mas minha mais fundamental perspectiva subjacente sobre como as coisas funcionam, da qual tenho pouca consciência, se tenho alguma, é a de que vivo em um universo fundamentalmente hostil no qual tenho de ser convencionalmente “bom” o tempo todo. Nesse caso, há uma ansiedade de fundo que torna a expressão e a prática de meus valores muito limitados, faz com que sirvam apenas a si mesmos. Apesar de todas as minhas boas intenções e de meus esforços, outros perceberão isso, ainda que apenas subliminarmente, como um fator limitador de minha habilidade de criar um contenedor no qual eles podem fazer suas habilidades desabrocharem completamente. Quando criamos um contenedor para os outros, quanto mais profunda a nossa visão, mais forte o contenedor que contribuímos para criar.

Foto: Douglas Dickel

Foto: Douglas Dickel

Confiança × carisma

Grupos podem evoluir a partir de desafios e ter acesso a uma inteligência coletiva na medida em que existir um contenedor forte. Quanto mais tênues os limites, mais espaço existe no interior para o que necessita desabrochar, e mais os indivíduos sentem que podem tirar suas máscaras e usar por completo sua inteligência e sentimentos para interagir com os outros. Com um contenedor forte, desafios, enganos e surpresas não são vistos como ameaças, por mais irritantes que sejam, mas como pedras de toque para uma inteligência e uma inspiração maiores. Sem essa compreensão, resistências, em vez de virem à tona para que sua sabedoria surja, se manifestam como complacência relutante, paralisia ou dissolução. Muitas iniciativas de colaboração bem-intencionadas sofrem desse destino.

Assim, quais são os elementos essenciais para criar espaços contenedores nos quais pensamento e ação possam, juntos, apoiar-se de maneira poderosa em um grupo? Um deles é claramente o papel do líder, qualquer pessoa que tem ou assume a responsabilidade de guiar o grupo, em suas fases iniciais ou posteriores. Isso inclui tanto a responsabilidade pela direção de equipes ou unidades em um negócio como a responsabilidade que alguém assume de reunir um grupo de amigos para dar início a um projeto sem fins lucrativos, ou de assumir a posição de porta-voz de uma comunidade. Nesse papel, assumimos ao menos uma responsabilidade inicial para habilmente construir, manter e proteger o contenedor.

No pensamento clássico sobre trabalho em equipe, o líder influencia mais diretamente a primeira etapa do desenvolvimento do grupo, a etapa de formação. As demais etapas são conduzidas por membros da equipe. O líder estabelece normas e valores organizacionais, e facilita ou guia os grupos conforme necessário. Em qualquer tipo de liderança, como nas fases iniciais o líder corporifica o contenedor, a atitude e o tom que resulta das ações deste são essenciais. A maneira de ser do líder — seu grau de confiança, abertura e energia — imediatamente comunica aos outros quanto de si mesmos eles ousarão trazer para o projeto. A expressão de integridade e de interesse pelos outros naturalmente engendra confiança, até mesmo lealdade. Estilos específicos de personalidade ou liderança são uma preocupação secundária, e mesmo a competência para os assuntos em pauta não são um desafio básico; eles podem ser distribuídos entre o grupo, se o líder tem confiança para isso.

A confiança genuína e as qualidades de engajamento resultantes são bastante diferentes de carisma, cujo uso pode ser igualmente benéfico ou perigoso no curto prazo, e é frequentemente problemático no longo prazo. Um líder carismático pode transmitir um sentido de confiança e esperança a suas tropas, permitindo-lhes dar um passo além de suas limitações usuais. O problema é que, sem o fermento das qualidades de uma liderança autêntica, essa inspiração permanece baseada no culto irreal a um herói ou salvador, em vez de ser uma nova abertura às próprias forças de cada um — individualmente e em comunidade. Se as pessoas se tornam psicologicamente dependentes do líder, quando ele mostra fragilidade, há um grande desapontamento. É claro que um líder inescrupuloso pode usar seu carisma para conduzir pessoas além de seus limites, como vemos repetidas vezes ao redor do mundo quando oradores impetuosos alimentam o sentimento de injustiça das pessoas como meio para terem poderes ditatoriais.

O poder dos espaços contenedores

Um outro fator que pode ajudar a criar um espaço contenedor forte e é crítico para mantê-lo ao longo do tempo é a ligação entre os participantes. Esta pode ser construída pelo tempo e pela experiência juntos, assim como pelo sentido de um propósito compartilhado. Se somos verdadeiramente amigos, então já possuímos um forte contenedor de cuidado e apoio. Se passamos juntos pelo triunfo e pela adversidade, aprendemos muito sobre cada um de nós, sobre como provocar o brilho de nossos amigos e não considerar suas neuroses uma ofensa pessoal. Esses elos podem ser construídos muito rapidamente em circunstâncias extraordinárias — por exemplo, em uma pequena unidade do exército, onde literalmente a vida de cada homem ou mulher depende dos demais. Aprender a tolerar e até mesmo amar os demais e cultivar o senso de humor quando o pior do outro começa a manifestar-se geralmente exige tempo, assim como circunstâncias compartilhadas. Essa é uma razão da dificuldade de iniciar e coordenar projetos desafiadores quando dependem de desenvolver online um sentido de confiança compartilhada, sem relações face a face.

É necessário tempo para que as defesas relaxem e se desenvolva a confiança, e também para que ideias criativas possam emergir. Em nossa cultura de atenção curta, tempo parece ser um produto do maior valor. Podemos criar “panelas de pressão” que acelerem o trabalho de um grupo, mas temos de perceber que, nesse caso, não estamos criando uma máquina, e sim uma estufa. À medida que acrescentamos mais calor e nutrientes, coisas podem crescer  mais rapidamente (se estamos cultivando as coisas corretas), mas elas não vão desabrochar instantaneamente, já prontas — ainda teremos de cultivar os brotos e aguardar os frutos, que também crescerão mais rápido. Continuando nossa analogia com um jardim (algo assustador para qualquer um que tenha assistido ao filme Muito além do jardim), não podemos nos esquecer da luz. O meio físico, o espaço real no qual atuamos, tem um efeito profundo em como nos sentimos e pensamos, o que em geral é largamente ignorado. A maioria das salas de reuniões parecem ser construídas como restaurantes fast food, como lugares a que vamos para fazer negócios rapidamente e que logo deixamos. Imagine as diferenças entre ter uma conversa importante em uma sala com pé-direito baixo e sem janelas, e uma sala espaçosa com flores e plantas e com vistas para uma bela paisagem, ou ao ar livre; com ou sem comidas ou bebidas. Embora as opções em um ambiente organizacional possam ser limitadas, lembrarmo-nos de que não somos máquinas que funcionam em qualquer lugar onde sejam colocadas nos encorajará a otimizar a humanidade de nossos ambientes de trabalho.

A pedra de toque de um espaço contenedor é um conjunto de princípios claramente compreendidos e aceitos. A integridade do líder, a consistência entre o que ele diz e o que ele faz, é um espelho disso. Sem isso, temos duas linhas de comunicação em conflito: “É crítico fazermos assim”, e “Não era isso o que eu queria dizer”. As pessoas então se desmobilizam, mentalmente, fisicamente, psicologicamente. Grande parte da comunicação organizacional tem esse sabor.

Muitas vezes mensagens conflitantes ocorrem apesar de uma genuina boa intenção, como resultado de nossa ingenuidade em relação a hábitos profundos que precisamos confrontar em nós mesmos e nos outros. Isso se evidencia no cinismo muito comum nos textos em que as instituições expressam sua “missão”, que tendem a descrever uma forma de comportamento idealizada sem nenhuma noção de como atingi-la, ou sem considerar se essa forma é possível no mundo real. As direções propostas podem ser potencialmente inspiradoras, mas não sem um processo realista para desenvolver as atitudes e o trabalho em equipe a que se aspira. Ao escrever este livro, consultei trabalhos acadêmicos sobre liderança e grupos na Internet, e dei uma grande risada diante do seguinte texto (um pouco modificado para proteger o culpado), com minhas anotações iniciais entre parênteses:

Uma maneira de atingir um alto nível de criatividade é adotar a noção de que todas as ideias desenvolvidas em reuniões de grupos são “colocadas sobre a mesa”. Uma vez “sobre a mesa”, as ideias pertencem à equipe, e abre-se mão da posse pessoal. (Sim! Isso!) Abrindo-se mão da posse pessoal, os membros do grupo podem adicionar ou retirar elementos das ideias originais conforme a necessidade, e a tendência a defender uma ideia simplesmente porque é “minha ideia” é liberada, de modo que a equipe, e não um indivíduo, se torna o autor. (Como eles propõem fazer isso?)

O que está sendo descrito aqui como uma “noção” a ser “adotada” é, na verdade, um resultado árduo, que depende de um aprendizado doloroso e de coragem. Abrir mão de um sentido de posse sobre nossas ideias não é algo fácil, como os professores universitários deveriam saber muito bem; é uma barreira clássica para qualquer grupo de indivíduos altamente capazes que estejam trabalhando juntos. Princípios e aspirações nunca são suficientes; se fossem, poderiamos conquistar o mundo a que aspiramos apenas com nosso desejo. Precisamos de lembretes práticos, o tempo todo, não porque exista algo errado em nós, ou porque precisemos mudar a nós mesmos profundamente, mas por estarmos tão acostumados a nos deixar levar pelas oscilações de nossas reações, confundindo-as com nós mesmos, ou com uma reflexão acurada sobre “como as coisas são”.

Foto: Douglas Dickel

Foto: Douglas Dickel

Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com o autor. © 2009 Michael Chender. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização escrita do autor, é estritamente proibida. Trad. Carlos A. Inada.

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Criando espaços para a inteligência coletiva | 2009 | Uncategorized | Tags: , , , , | Comente




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