A h a b i l i d a d e n e g a t i v a:
J a c k K e r o u a c e a é t i c a b u d i s t a
Allen Ginsberg

Cicatriz (Scar), Marcelo Sahea
English version at Tricycle Magazine: http://bit.ly/5OhwM2
O interesse de Jack Kerouac pelo budismo começou depois de ele ter passado algum tempo com Neal Cassady, que estava interessado por variações californianas da espiritualidade New Age, em particular o trabalho de Edgar Cayce. Kerouac ridicularizava Cassady como uma espécie de “Billy Sunday de terno”* por seu interesse por Cayce, que entrava em transe profundo e então lia os chamados registros Akashic e dava conselhos médicos a pessoas que vinham fazer-lhe perguntas sobre temas que envolviam a reencarnação. Assim, Kerouac estava interessado em retornar às fontes históricas originais. Foi a uma biblioteca em San Jose, na Califórnia, e leu um livro chamado Uma bíblia budista, editado por Dwight Goddard — uma ótima antologia de textos budistas clássicos. Kerouac os leu de maneira muito profunda, memorizou muitos deles, e então continuou a fazer outras leituras e pesquisas e na verdade se tornou um especialista em budismo brilhante e intuitivo. Gary Snyder notou que Kerouac tinha uma inteligente compreensão do pensamento oriental, e também uma compreensão sábia, algo que a maior parte das pessoas não possui.
Kerouac introduziu esse tema a mim na forma de cartas em que me lembrava que o sofrimento era a base da existência, o que é a primeira nobre verdade no budismo. Na época eu era um intelectual liberal progressista mais ou menos de esquerda, e sentia-me insultado quando Kerouac dizia que o fundamento real da existência era o sofrimento. Pensava que isso era um insulto pessoal e não percebia que ele apenas me dizia o que havia compreendido ser a natureza fundamental da vida.
Há no budismo esta doutrina das três marcas da existência: primeira, que a existência contém sofrimento; em iídiche, a existência contém tsuris, sérias dificuldades. Nascendo, como o poeta Gregory Corso diz, como “uma bolsa d’água peluda”, teremos alguma dificuldade antes de deixar nosso corpo, alguma irritabilidade ou desconforto. Ainda que não gostemos da palavra sofrimento, temos de aceitar que a existência contém algum “desconforto”. A definição tradicional diz que, tendo nascido, a inevitável e derradeira consequência é a velhice, a doença e a morte, bem descritas por Kerouac. Isso é inevitável.
A segunda característica da existência como apresentada no dharma do Buda é a impermanência — a transitoriedade de nossa condição; o fato de aquilo que aqui temos ser como um sonho, no sentido de que é real enquanto está aqui. E assim Kerouac diria: “Volte em um milhão de anos e diga-me que isso é real”. Ele possuía um senso de realidade da existência e ao mesmo tempo um senso de irrealidade da existência. Para a mente ocidental, isso é uma contradição e uma impossibilidade. Mas, na verdade, isso não é impossível, porque é a verdade; este universo é real, e é ao mesmo tempo irreal. Isso é conhecido no budismo como sabedoria coemergente, o fato de forma e vacuidade serem idênticas. Essas são ideias básicas do budismo. Encontraremos a terminologia do sunyata, vacuidade dentro da forma, em todos os escritos de Kerouac do período intermediário, especialmente em Mexico City blues. A ideia de transitoriedade, de impermanência, não é uma ideia proveniente do Himalaia, e não é uma ideia oriental, é uma ideia ocidental clássica. Gregory Corso já parafraseava Heráclito: “Não podemos entrar no mesmo rio uma única vez”, lembrando-nos de Heráclito: “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Corso avançava com um movimento poético.
O que Kerouac estava descobrindo não era alguma estranha noção oriental, estranha à mente ocidental. Estava explorando a base da própria mente, como ela é conhecida no Ocidente assim como no Oriente, exceto pelo fato de que ele via as formulações budistas como mais sofisticadas do que a formulação monoteísta ocidental. Houve, no entanto, formulações não teístas desse mesmo princípio em escritores ocidentais que ele lera, como Lucrécio e Montaigne.
E o terceiro aspecto ou marca da existência é anatma — atman significa self; anatma, sem um self permanente. Isso resulta da segunda marca, a da inexistência de algo permanente. “Todos os fundamentos da existência são transitórios”, ou, como Kerouac parafraseava a terminologia budista: “Tudo o que constitui o ser é transitório”. Assim, não existe individualidade permanente, nenhum eu, eu, eu, eu permanente, e nenhum Grande Eu nos céus. Não há pontos de referência. Não há nada além do espaço aberto ou, como é conhecido pelos existencialistas, o Nada. Sunyata, como se diz no Oriente; um espaço aberto e acomodador. O sentido existencialista de um “Nada” anticlimático, frustrante e claustrofóbico é uma noção muito ocidental e teísta. No Oriente, a noção de “espaço aberto” ou “espaço acomodador” é considerada uma liberação da limitação de horizonte ou de fronteiras, ao passo que a imagem teísta de Deus é o ponto de referência derradeiro. Ou, para dizer de maneira muito simples, quando o filho de Chögyam Trungpa perguntou a seu pai, o qual era um grande apreciador dos escritos de Kerouac: “Papai, existe um Deus?”. Trungpa disse: “Não”. E seu filho respondeu: “Ufa!”. Esse suspiro de alívio teria resolvido muitos dos problemas de Kerouac.
Depois, Kerouac apresentou-me ao budismo na forma de uma canção. Como vocês devem saber, Kerouac admirava Frank Sinatra por sua elocução de crooner, por sua oratória, pela clareza de sua fala, pela precisão com a qual ele pronunciava o conteúdo afetivo e emocional das vogais. Da mesma maneira, como Frank Sinatra, as primeiras palavras diretamente budistas que ouvi da boca de Kerouac, depois das cartas, foi quando cantou o Refúgio Triplo. Esse seria o passo seguinte.
Isto é fundamental ao entendimento que Kerouac tem do budismo. Diz: “Refugio-me no Buda, refugio-me no dharma, refugio-me no sangha”. O Buda pode ser aqui definido como mente desperta, clara, não adormecida, que não devaneia mas é clara e consciente deste espaço. O dharma é a explicação e exposição intelectual do estado desperto — historicamente, através dos sutras e da compreensão da teoria. O sangha é a reunião dos companheiros meditadores. Ele cantou para mim, em sânscrito: “Buddham Sharanam Gacchami, Dharmam Sharanam Gacchami, Sangham Sharanam Gacchami”; cantou como o Frank Sinatra de 1952. E essa foi minha primeira introdução à delicadeza e à suavidade de seu budismo, para além da dura verdade do sofrimento, da transitoriedade e da impermanência de Allen Ginsberg, da impermanência de Kerouac.
Em seguida vêm as quatro nobres verdades, que os leitores leem em seus escritos sem maior curiosidade sobre o que elas são, ainda que em vários ensaios Kerouac as explique. Algum crítico leu Kerouac bem o suficiente para se lembrar do que ele disse das quatro nobres verdades? Deveríamos respeitar Kerouac o suficiente e perguntar: “O que ele queria dizer com quatro nobres verdades? O que são essas quatro nobres verdades das quais ele fala o tempo todo?”. Talvez elas devam ser apresentadas aqui como parte de uma exposição da ética de Kerouac, porque se referem diretamente à ética central que encontramos em Vagabundos iluminados [Dharma bums], Mexico City blues, Algum dharma [Some of the dharma], Acorde [Wake up], sua biografia do Buda, Anjos da desolação [Desolation angels], e mesmo em obras posteriores, mais carregadas com noções monoteístas católicas de coração sagrado em relação ao sofrimento.
As quatro nobres verdades (que se fundam nas três marcas da existência) são: primeira, a existência contém sofrimento. Segunda, o sofrimento é causado pela ignorância das condições nas quais existimos — ignorância da transitoriedade e ignorância do anatma, a natureza vazia da situação, de maneira que todos têm medo de uma condição permanente de sofrimento e não se dão conta de que o próprio sofrimento é transitório, impermanente. Não existe Inferno permanente, não existe Céu permanente. Portanto, o sofrimento que sentimos durante esta transição de vida não é uma condição permanente que necessitemos temer. Não é onde vamos terminar. Ao final, somos liberados pelo sofrimento ou na morte, ou na vida, despertando para a natureza de nossa situação e não segurando e agarrando, gritando e tendo raiva, ressentimento, irritação, ou sentindo-nos insultados por nossa existência.
É possível tomar nossa existência como um “mundo sagrado”, ver este lugar como espaço aberto e não como um vazio escuro e claustrofóbico. É possível ter uma relação amistosa com as naturezas de nosso ego, é possível apreciar o jogo estético das formas na vacuidade, e existir nesse lugar como reis majestosos de nossa consciência. Mas, para isso, teríamos de abrir mão de agarrar-nos para que tudo seja como em nossos devaneios pensamos que deva ser. Assim, o sofrimento causado pela ignorância, ou sofrimento exagerado pela ignorância ou pela maneira ignorante como seguramos e agarramos nossas noções de como pensamos que as coisas deveriam ser, é o que causa o “sofrimento do sofrimento”. O sofrimento em si mesmo não é tão ruim, é o ressentimento em relação ao sofrimento que é a verdadeira dor. Penso que é aqui que Kerouac foi pego como católico, em última instância, porque não penso que ele tenha superado esse medo da primeira nobre verdade.
A terceira nobre verdade diz que existe um fim do sofrimento, existe um caminho para fora dele. E a quarta nobre verdade é chamada de caminho óctuplo para fora de nosso sofrimento. O caminho óctuplo é: primeiro, compreensão verdadeira, ou visão verdadeira, como é chamada, perspectiva verdadeira de toda a cena da consciência e do espaço, que é a compreensão do sofrimento e a compreeensão da transitoriedade e a compreensão de que não existe ego permanente. A visão verdadeira, então, conduz à aspiração verdadeira ou ambição verdadeira, ou a ambição de superar o obstáculo da ignorância, da avidez, da paixão e do apego, e sair desse dilema.
Em terceiro lugar, depois da aspiração verdadeira, vem a fala verdadeira, fala que se alinha ou se coordena com uma compreensão da situação básica. Isso é distinto do, digamos, problema que Kerouac enfrentou depois, sofrendo ao buscar um ponto de referência permanente em um Deus católico, que nos salvará e levará ao Céu, ou que nos condenará ao Inferno: um sentido de ruína permanente ou de êxtase permanente a que chegaremos. Assim, a fala verdadeira não cria mais lixo mental, não cria mais nevoeiro mental para os outros ou para nós mesmos.
Depois da fala verdadeira, o quarto passo é a atividade verdadeira, não criar desordem no universo ao insistir que outras pessoas o sigam em suas guerras obsessivas, tanto guerras contra Deus ou a favor dele, contra ou a favor de Hitler, ou contra ou a favor de sua mãe.
Da ação verdadeira vem a ocupação verdadeira, o tipo correto de trabalho, de maneira que não terminemos com o emprego correto na indústria nuclear e ajudemos a explodir o mundo. E da ocupação verdadeira vem a atenção plena verdadeira, a atenção ao que está ao nosso redor, sem a obstrução da culpa pelo que estamos fazendo, dizendo, pensando, trabalhando.
Da atenção plena verdadeira provém a energia verdadeira, despertar pela manhã, feliz com o que faremos, não obstruídos pelo nosso próprio lixo. Da energia verdadeira vem o samadhi verdadeiro ou meditação verdadeira, basicamente, estar aqui onde estamos, inalterados, sem culpa. Sermos capazes de existir sem credenciais, existir em simultaneidade com a terra, sem desculpas, da mesma maneira como o sol não tem de desculpar-se.
Aqui chegamos à proclamação norte-americana original dessa condição, feita por Walt Whitman: “Até que o sol o rejeite, não o rejeitarei”. Isso também se alinha com a compreensão de Kerouac. Então, disso vem o termo que Kerouac pronuncia inúmeras vezes em sua poesia, o “bodhisattva”. Quantos sabem o que é um bodhisattva, e como ele está usando esse termo? Eis aqui a fórmula: o bodhisattva faz um conjunto muito claro de quatro votos simples.

Pesadelo (Nightmare), Marcelo Sahea
Primeiro: são inúmeros os seres sencientes. Prometo liberar a todos (cães, vermes, gatos, mamãe, eu mesmo, Ginsberg). Prometo iluminar a todos, é esse o propósito e a ética derradeira da escrita de Kerouac. Segundo: os obstáculos são incontáveis, prometo ir além deles. Minhas próprias neuroses são incontáveis, meus próprios apegos são incontáveis, a própria agressão de qualquer pessoa é inesgotável. E fazemos a promessa de relacionarmo-nos com isso, reconhecê-lo, trabalhá-lo, ir além e abrirmo-nos para admitir a existência de outros seres sencientes em nosso universo e relacionarmo-nos com eles de uma maneira honesta.
O terceiro dos quatro votos do bodhisattva: os portões do dharma são incontáveis, prometo adentrar cada portão. Os portões do dharma são as situações nas quais praticamos uma mente desperta, situações em que devemos entrar sem medo, incluindo a situação do nascimento e da morte, a situação de escrever obras dhármicas para os Estados Unidos, como fez Kerouac, e a situação de não ter medo de ser tolo e exibir um Coração Sagrado ao expor a prosa de Kerouac. É a disposição de permitir nossa própria emoção e lágrimas, nosso sentido de sofrimento, permitir a confiança mútua em cada um, com nossos sentimentos mais sensíveis, como Kerouac confiou a nós seus sentimentos mais sensíveis: “Os portões do dharma são infindáveis. Prometo não boicotar nenhum deles”. Nenhum boicote, em nenhuma situação, e sim total abertura a todas as situações.
E, enfim, o caminho do Buda, ou caminho da mente desperta, é infinito, sem fim, nunca chegamos a um termo, é muito longo. Prometo seguir em frente de qualquer maneira. Esses são os quatro votos do bodhisattva.
Mas, quando fazemos os votos do bodhisattva, isso não significa que somos capazes de cumpri-los. Significa apenas que essa é a direção na qual gostaríamos de ir. É nosso ideal. Esse é o compasso ou esse é nosso desejo de coração, mesmo que não possamos realizá-lo. Não precisamos nos impedir de ser um bodhisattva por medo de que não seremos capazes de cumprir esses quatro votos, porque, se esse é nosso desejo de coração, isso é suficiente para fazermos o voto. É a agulha magnética da bússola, uma direção, uma indicação de desejo, e um voto de ir nessa direção. Não há Céu permanente, nenhuma punição de um Inferno permanente. Assim, isso leva ao próximo ponto: a mais elevada e perfeita sabedoria, ou prajnaparamita, a derradeira afirmação filosófica e ética do budismo zen e do budismo tibetano, encontrada em um texto que Kerouac conhecia muito bem, o “Sutra do coração”.
Em resumo, a essência do prajnaparamita, o “Sutra do coração”, diz: o bodhisattva Avalokiteshvara (Senhor da misericórdia que olha para baixo) estava em meditação sobre a mais elevada sabedoria perfeita quando percebeu que todos os cinco agregados (skandhas) da consciência que temos são vazios, e isso liberou qualquer sofrimento. O discurso então continua:
Shariputra (um estudante), “a forma é vacuidade, a vacuidade também é forma. A vacuidade não é outra coisa senão forma; a forma não é outra coisa senão vacuidade. Da mesma maneira, sensação, percepção, formação e consciência são vacuidade. Assim, Shariputra, essa é a característica original de tudo. Não há nascimento nem cessação. Não há pureza nem impureza. Não há decréscimo nem acréscimo [...] nenhum olho, nem ouvido, nem nariz, nem língua, nem corpo, nem mente; nenhuma cor, nem som, nem odor, nem sabor, nem tato, nenhum objeto; nenhum olho, nem nenhum mundo do olhar, nenhum mundo da consciência; nenhuma ignorância, nem luta contra a ignorância [...] nenhum sofrimento, nem origem do sofrimento, nem cessação do sofrimento, nem caminho, nem sabedoria, nem realização e nem não-realização. Portanto, todo bodhisattva subsiste graças à mais elevada sabedoria perfeita, porque a mente não é obstáculo e, porque não existe obstáculo à mente, não há medo. Eles transcendem a falsidade e alcançam o nirvana. Todos os budas do passado, do presente e do futuro dependem dessa mais elevada sabedoria perfeita [...] Assim, o grande mantra do prajnaparamita, o mantra insuperado, o mantra inigualado, o mantra que aplaca todo sofrimento, deveria ser conhecido como verdadeiro. Verdadeiro porque não é falso. Então proclamou o mantra prajnaparamita, que é dito desta maneira: Gate Gate Paragate Parasamgate Bodhi Svaha! Foi, foi, foi além, foi até a outra margem, mente desperta. Saudações”.
Esse é um resumo do texto do prajnaparamita: “O sutra do coração da mais elevada sabedoria perfeita”. A maior parte da poesia intermediária e tardia de Kerouac depende de um vislumbre ou algum entendimento dessa afirmação, como uma abordagem tanto ética como filosófica da realidade e da aparência. Uma vez conhecida a terminologia, podemos ler Mexico City blues com muita facilidade e perceber como ele é engraçado, como é uma boa representação da mente, com muita agudez filosófica. Poucos leitores tiveram a curiosidade de buscar o budismo e aprender a base, que pode ser resumida em uma frase do Vajraheddika, ou “Sutra do diamante”, que Kerouac citava frequentemente: todas as concepções sobre a existência do eu, assim como as concepções sobre a existência de um eu supremo, assim como todas as concepções sobre a não-existência do eu supremo, são igualmente arbitrárias, são apenas concepções.
Isso não está muito longe da noção que William Burroughs transmitiu a Kerouac em 1945, quando lhe deu uma cópia de Ciência e sanidade [Science and sanity], de Alfred Korzybski, obra fundamental da semântica geral. O tema era: não confunda palavras (e ideias) com eventos. A mesa não é uma mesa. Isto não é um dedo, chamamos de dedo mas é o que é. Isso deixa o universo em aberto. O mote é: “Evite o é da identidade”.
Infelizmente, Kerouac não teve nenhum mestre na linhagem do budismo zen ou do budismo clássico. E assim o que faltou foi a ferramenta, o instrumento para que se desse conta do tipo de substrato dessa exposição, ou seja, a prática sentada da meditação — na verdade, trazer para seu corpo a noção de vacuidade ou examiná-la como um processo da mente, através da prática da meditação clássica como transmitida em uma imemorial tradição oral.
Kerouac, no entanto, era muito inteligente e conhecia esse substrato quase intuitivamente. Podemos dizer isso a partir de seus escritos, de sua poesia com metáforas da vacuidade e a descrição da vastidão do espaço, o que é a mesma coisa que vacuidade. Vemos isso no final de Cidade pequena, cidade grande [The town and the city], a visão de um campo de futebol enquanto o sol se põe encoberto por nuvens, com espaços mais vastos do céu além delas. O sentido de “consciência panorâmica” corre todas as descrições de paisagens de Kerouac. Sempre o encontramos focalizando Neal Cassady na mesa de bilhar ou sinuca, a câmara retrocedendo como no fim do filme Les enfants du paradis, quando a câmara retrocede acima dos prédios, acima da roda-gigante, até vermos a enorme multidão que retrocede em um espaço mais vasto.
Mas Kerouac não tinha a instrução específica do método da prática de meditação zen. Que, basicamente, é seguir a respiração e assumir uma atitude amistosa em relação a nossos pensamentos, trazendo a mente de volta para a atenção à respiração. Kerouac fazia sua própria forma de prática sentada, que envolvia comprimir o ânus, fechar os olhos e tentar ver uma luz dourada.
Com isso conseguia algum tipo de satori. Mas a instrução que recebemos em antigas práticas de meditação sentada é: assim que vir seus pensamentos, renuncie a eles, solte-os. Não se apegue ao pensamento, não tente fazer dele um ponto de referência, conserve aberto o espaço da mente. Como diz Blake, “aquele que amarra a si mesmo uma alegria/ a vida alada destrói./ Aquele que beija a alegria enquanto ela voa/ na aurora da eternidade vive”.
Esse é o fundamento, apenas prestar atenção ao contínuo processo da respiração enquanto ele acontece e assumir uma atitude amistosa em relação a nossas formas de pensamento. Não as convidar para entrar, nem as expulsar, permitindo que cuidem de si mesmas, mantendo nossa atenção no espaço físico real ao nosso redor, o fluxo da expiração. Esse é um estilo de meditação tibetano. Gary Snyder nunca ensinou a Kerouac o estilo zen da prática de meditação sentada devido a algum estranho problema de comunicação.
O satori de Kerouac era agarrar-se tanto ao desespero do sofrimento, ao medo do sofrimento, do Inferno permanente, como ao medo de um Céu permanente: “Sou apenas um apache/ fumando Hashi, no velho Cabashy/ junto à lamparina”, humorosamente paralisado em um tipo horrível de Inferno de haxixe. Constantemente ele se refere a esta imagem: “Pedaços do Buda, material congelado e fatiado microscopicamente em necrotérios do Norte [...] esqueletos de heróis [...] dedos e falanges [...] elefantes de gentileza dilacerados por abutres”. Foi tão obcecado pelo sofrimento que encontrou que não conseguiu soltar. Penso que o álcool amplificou esse sofrimento, fazendo dele presa do fantasma da imposição monoteísta que Blake denunciara como “seiscentos anos de sono” da civilização ocidental.
Temos um contraste aqui, ética e filosoficamente, entre a prática budista não teísta da consciência do espaço ou da consciência e a contemplação teísta católica, ou fixação, da Cruz do sofrimento.
À medida que Jack envelhecia, desesperado e sem os meios para acalmar sua mente e abrir mão do sofrimento, ele tendia cada vez mais a agarrar-se à cruz. Assim, em seus últimos anos, fez muitas pinturas da cruz, de cardeais, papas, do Cristo crucificado, de Maria, vendo a si mesmo na cruz, e finalmente concebendo a si mesmo sendo crucificado. Ao beber, passava por uma crucificação na mortificação de seu corpo. Apesar disso, ele tinha essa qualidade de uma capacidade negativa, a habilidade de conter em sua mente ideias opostas, sem a “irascível busca do fato e da razão” que John Keats propôs como a verdadeira mente do poeta shakespeariano.
“Sou canadense, sou de Lowell, sou judeu, sou palestino, sou, sou o dedo, sou o nome.” Kerouac não se emaranhava pesadamente em tal identidade fixa.
Em certo sentido, devemos a Burroughs ter afrouxado em Kerouac esse “ser da identidade” em meados da década de 1940, e assim Kerouac teve a habilidade de sentir empatia pelas velhas rainhas travestis e de tornar-se “um dos grandes trapaceadores/ de garotas/ do mundo”, como diz em Mexico City blues: “Querida! Quente/ A esse tipo de acampamento/ Não faço objeção/ a menos que mantido nos limites da razão”. Podia ter empatia pelo garoto típico norte-americano, herói do futebol. Podia alternar-se entre ser um sofisticado literato e um velho beberrão. Podia ser um caipira do campo, podia ser como Thomas Wolfe,** ou podia sentir empatia por William Burroughs como um sofisticado europeu “não-wolfiano”. Assim, ao final, sua poesia e sua prosa se tornam uma manifestação perfeita de sua mente. Esse era o ponto da prosódia espontânea. E o grande lama tibetano Chögyam Trungpa, ao examinar a poesia de Kerouac, disse: “É uma perfeita manifestação da mente”. Sua obra é aceita na comunidade budista como uma grande manifestação da mente poética; verdadeira à natureza da mente como tradicionalmente compreendida pelas teorias budistas da mente espontânea, como alcançá-la e como usá-la.
Kerouac escreveu em janeiro de 1967 o ensaio “Últimas palavras” (publicado em Escapada [Escapade]), citando o “Surangama sutra”:
“Se agora tens o desejo de compreender mais perfeitamente a Iluminação Suprema, deves aprender a responder espontaneamente e sem recorrer ao pensamento discriminativo. Pois os tathagatas nas dez direções dos universos, por causa do caráter direto de sua mente e da espontaneidade de sua atividade mental, sempre permaneceram, desde os tempos sem começo até os tempos sem fim, em uma tal quididade com a natureza iluminada da pura essência da mente.”
Então Kerouac continua:
“[…] o que é estranhamente uma velha notícia. Podemos também encontrar algo muito parecido em Marcos 13:11: ‘Quando, pois, vos conduzirem para vos entregarem, não estejais solícitos de antemão pelo que haveis de dizer; mas o que vos for dado naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo’ [trad. João Ferreira de Almeida]. Mozart e Blake muitas vezes sentiam que não estavam conduzindo suas penas, e sim que era a ‘Musa’ que cantava e a conduzia. Em outro sentido, a escrita espontânea, ou improvisada, artística, imita o melhor que pode o fluxo da mente que se move em seu continuum de espaço-tempo, nesse sentido, algum dia talvez possa realmente ser chamada de Prosa da Era Espacial, porque, quando os astronautas flutuam pelo espaço e pelo tempo, eles tampouco têm a oportunidade de parar, reconsiderar e voltar. É possível que não estarão lendo nada além de uma escrita espontânea quando saírem de lá, a ciência da linguagem ajustando-se à ciência do movimento deles [...] Para romper a barreira da linguagem com PALAVRAS, devemos estar em órbita ao redor de nossa mente, e é possível que me levante novamente caso recupere minhas forças. Pode parecer vão, mas venho lutando com esse problema angelical ao menos com tanta disciplina quanto Jacó.”
—
(*) William Ashley Sunday foi um popular jogador de beisebol norte-americano na década de 1880, que se tornou um célebre e influente evangelista nas duas primeiras décadas do século XX. (N. do T.)
(**) Thomas Clayton Wolfe foi um importante romancista norte-americano do início do século XX, cuja obra refletia vividamente a cultura e os costumes do período, filtrados por sua perspectiva sensível, sofisticada e hiperanalítica. (N. do T.)

Sonho (Dream), Marcelo Sahea
Texto adaptado por Allen Ginsberg de um ensaio publicado em Un homme grand: Jack Kerouac et la confluence des cultures (Carleton University Press, 1990). As interpretações de Allen Ginsberg dos ensinamentos budistas seguem formulações apresentadas no livro Além do materialismo espiritual (Cultrix, 1986) e em outros textos de Chögyam Trungpa Rinpoche. A tradução do “Sutra Prajnaparamita” foi adaptada por Allen Ginsberg e Gelek Rinpoche a partir de versão de Shunryu Suzuki, e seguem aqui a tradução de Shambhala Brasil — Comissão de Tradução.
Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com Tricycle: The Buddhist Review. © 2009 Tricycle.com. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização por escrito, é estritamente proibida. Trad. Carlos A. Inada.
Imagens: poemas visuais Guardar (capa), Cigarra (sumário), Cicatriz, Sonho e Pesadelo, de Marcelo Sahea. © 2009 Marcelo Sahea. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização por escrito, é estritamente proibida.







Comente!