V i s l u m b r e s   d e   e s p a ç o:
o   d o m   d o   p r i n c í p i o   f e m i n i n o

Alice Haspray

Foto: Alice Haspray

Foto: Alice Haspray

Qual é o dom do princípio feminino em nosso mundo? Como recebemos esse dom? Que a energia feminina seja mal compreendida, ignorada ou temida, isso é algo com profundo significado para a vida tanto de homens como de mulheres, e para qualquer aspiração que tenhamos de criar um mundo melhor. Nas palavras de Chögyam Trungpa Rinpoche, para experimentar diretamente o princípio feminino, primeiro temos que “tirar nossas couraças”. É exatamente isso o que ele nos convida a fazer em seu notável livro Vislumbres de espaço: o princípio feminino & EVAM (Glimpses of space: feminine principle & EVAM, editado por Judy Lief. Halifax, Canadá: Vajradhatu Publications, 1999). Vislumbres de espaço é um livro que nos desafia a pensar maior, a abandonar nossos pontos de vista tacanhos e limitados sobre quem somos como mulheres e homens. Talvez a ideia mais provocante do livro seja que os princípios masculino e feminino são indivisíveis. Cada um de nós — homens ou mulheres — possui ambos os princípios. Como seres humanos, nosso caminho é envolver essas energias de uma maneira dinâmica e saudável. É crucial lembrar que esta não é uma discussão sobre gêneros. A exploração da inseparabilidade dos princípios feminino e masculino pode trazer mais perguntas do que respostas, e espero que tenhamos alegria para nos envolver com a incerteza que surgir.

Qual é a essência de cada um — do princípio feminino e do princípio masculino? Da vasta perspectiva apresentada por Trungpa Rinpoche em Vislumbres de espaço, os princípios feminino e masculino nada mais são do que espaço e sabedoria (feminino), e energia/atividade e meios hábeis dentro desse espaço (masculino). A capacidade de acomodar é o aspecto feminino, e a atividade é o masculino. Como um contenedor que cria o espaço para aquilo que ele contém — o contenedor é o princípio feminino. O que é colocado nesse contenedor (como o chá em uma xícara de chá, ou a sopa em uma tigela) representa a energia tangível do princípio masculino. Os elementos intangíveis são o princípio feminino. Quando usamos palavras como tangível e intangível (assim como Trungpa Rinpoche em Vislumbres de espaço), podemos ir além de nossas obsessões com gêneros. Quando sintonizamos com o jogo sutil de elementos tangíveis e intangíveis em nossa vida cotidiana, começamos a enxergar o quadro mais amplo do que realmente está acontecendo no mundo. Essa experiência é libertadora — e é motivo de celebração.

O convite para “tirar nossas couraças” é realmente isto — um convite para abrir mão de nossas visões estreitas e rígidas, olhar de uma maneira nova para nós e para o que está acontecendo ao nosso redor. Para que possamos ter uma consciência vívida de nossos aspectos feminino e masculino, poderíamos nos perguntar: precisamos de mais espaço em nossa vida? ou precisamos de mais atividades e coisas? Penso que descobriremos que na maior parte do tempo precisamos de mais espaço, mais energia feminina. Tirar nossas couraças permite-nos abrir mão de nossas preconcepções e simplesmente estar em um espaço de incerteza. Quando encontramos uma situação, temos a tendência de logo atirar. Agimos sem ter uma visão do todo, sem apreciar o espaço daquele momento. Instantaneamente queremos algo ou queremos rejeitar alguma coisa. Apenas reagimos. Queremos aumentar e proteger nosso território. Somos constantemente fisgados para fazer alguma coisa. Assim, como podemos soltar toda essa ocupação para apenas estar no espaço e relaxar? A linhagem materna, a corporificação do princípio feminino, oferece-nos um convite aberto para fazer justamente isso.

Na tradição de Shambhala como ensinada por Chögyam Trungpa, o Sol do Grande Leste é o princípio feminino da prajna ou curiosidade. É a essência de por quê, como seres humanos, continuamos a viver. É o Sol do Grande Leste que inspira cada um de nós a nos levantar pela manhã, escovar os dentes, nos vestir, ir para o trabalho, ir para uma celebração maravilhosa, ajudar nosso amante que está morrendo, fazer graça para um parente irritante ou dizer adeus a um amigo querido. O Sol do Grande Leste é a essência do coração humano — é nossa inspiração para nos abrirmos e vivermos. Ele está ligado a nossa bondade fundamental como seres humanos. A bondade fundamental, a essência de nossa humanidade, significa que tudo o que estiver acontecendo pode ser trabalhado. Podemos nos relacionar com o que quer que esteja ocorrendo; podemos seguir em frente com isso e nos inclinarmos em direção a isso. Como dizia Trungpa Rinpoche, “não precisamos ter medo de ser quem somos”. É a sabedoria da bondade fundamental e do Sol do Grande Leste que nos ensina que os obstáculos são temporários e que eles se dissolvem no espaço. Esse espaço é a essência acomodadora do princípio feminino, da abertura e da curiosidade.

Do ponto de vista do caminho de Shambhala, os princípios feminino e masculino são indivisíveis. Temos ambos. A manifestação física dessas duas energias é nosso gênero. Um homem pode ter mais energia masculina e uma mulher, mais energia feminina. No entanto, nem sempre é assim, e a energia varia de acordo com a pessoa. O importante é envolver as duas energias — perceber sua inseparabilidade dinâmica. Se as energias masculina e feminina não estão equilibradas de uma maneira vibrante e saudável — quando o domínio de uma se dá em detrimento de outra —, o resultado é a desarmonia e a doença. Quando nos fechamos à energia feminina do espaço, quando somos capturados pela agitação e pela velocidade das atividades e das coisas, nossa mente se torna tacanha e estreita. Então, quando experimentamos o espaço, perdemos o chão, perdemos nossa história coerente, e talvez percamos a cabeça. Por outro lado, quando estamos muito perdidos no espaço, estamos aéreos, literalmente “fora do espaço”; não podemos realizar o que precisamos fazer sem meios hábeis. Necessitamos tanto da sabedoria do princípio feminino como da destreza de agir com habilidade que é o dom do princípio masculino.

Penso que é possível dizer com segurança que a energia masculina vem dominando nossa sociedade há muito, muito tempo. Também podemos dizer que a energia masculina, no sentido de atividade, tangibilidade e materialidade, tem sido supervalorizada, em detrimento dos elementos intangíveis do princípio feminino. Podemos ver isso muito literalmente no que vem acontecendo com o planeta e os oceanos. Vemos o desaparecimento do espaço aberto e a erosão e degradação da Terra e da água. O progresso é muitas vezes definido de uma maneira estreita; é muito freqüentemente vinculado apenas ao que faz a economia crescer em um nível material. Os elementos intangíveis — como a arte, a cultura e a verdadeira celebração — tendem a não ser tão valorizados. Os elementos intangíveis de uma situação são capazes de conferir enorme poder, sustentação e magia, como bem sabemos. Portanto, é vital que não os negligenciemos. Esse é o poder da energia feminina.

Sempre que há um espaço aberto, temos a tendência de preenchê-lo. Sempre que há uma brecha, queremos colocar algo nela. A dança entre abertura e atividade é o jogo imediato das energias feminina e masculina. Podemos contemplar a cada dia essa dança em nossa vida. Nós nos sentimos confortáveis em deixar que exista mais espaço — um espaço onde aparentemente nada está acontecendo? Podemos manter esse espaço, ou temos que imediatamente preenchê-lo com alguma atividade? Em um nível fundamental, esta conversa diz respeito a vocês e a mim. Ela trata de como podemos incorporar e equilibrar esses princípios em nossa vida. O que é a energia masculina que trazemos? E a feminina? Como elas dançam juntas? Quando dizemos que necessitamos de espaço, onde o encontramos? Bem no meio de toda essa energia está o próprio espaço. Quando há muita energia, o espaço está exatamente lá. Quando há muito espaço, a energia está exatamente lá. Não está em nenhum outro lugar. Onde mais poderia estar? Quando nos sentimos claustrofóbicos, como encontramos espaço para respirar?

Trungpa Rinpoche escreveu uma “Súplica à linhagem materna”, que foi incluída em uma das antologias de suas poesias chamada Chuva oportuna (Timely Rain. Boston: Shambhala Publications, 1998) [ver abaixo]. Sempre que a escuto, o último verso sempre parece ficar suspenso no ar. Ele diz: “Por favor, ajuda-nos a ser gentis e fortes”. A gentileza é a qualidade acomodadora do espaço; a força é a qualidade do caminho que trabalha nossa mente para sermos, sem artifícios. Não há saída. Isso é difícil! A justaposição de gentileza e força é provocativa. A força é a disciplina de permanecer neste ponto, de estar totalmente presente neste momento, e de abrir mão de nossa tendência de sempre querer que a vida seja diferente. Esse aspecto gentil e forte do princípio feminino a tudo permeia. O espaço é realmente aberto; mas é a própria mente que estamos trabalhando. Como podemos trazer totalmente nossa consciência para cada momento? Essa é uma questão difícil.

Grande parte do sofrimento humano pode ser relacionado à perda de nossa ligação com o ponto de vista sagrado, com os aspectos intangíveis deste nosso mundo que nos alimentaram no passado. Hoje, parece que estamos aturdidos, capturados por manchetes ou por fragmentos de som. Estamos sempre em busca de coisas super-tangíveis que possamos ver e pegar fisicamente. É como uma aposta fácil que sempre podemos fazer. Não temos apreciação pelo esforço nos bastidores por trás do filme, ou por cozinhar uma tigela de sopa, não importa. Podemos não notar a inteligência sutil do intangível, que é o fator de união que torna possível a criação. É fácil fazer um gesto grandioso que todos podem notar. No entanto, não é nele que se manifestam, necessariamente, a energia e a sabedoria verdadeiras. Se vemos apenas o gesto grandioso, estamos dando demasiada ênfase ao princípio masculino, ao aspecto energético da ação. Há sempre tanta energia, tanta agitação e burburinho, que podemos perder a visão do espaço. Quando isso acontece, perdemos a capacidade de acomodar e não existe mais contenedor.

Felizmente, temos sempre a oportunidade de entrar diretamente em qualquer situação. Sempre que fazemos isso pontualmente, não importa quão claustrofóbicas as coisas pareçam, um enorme espaço se abre. Esse espaço se manifesta tanto em um nível externo como em um interno. Explorar o princípio feminino nos conduz ao espaço aberto que nos circunda e ao espaço da bondade fundamental de nosso próprio coração. Essa é a promessa e o convite da linhagem materna da gentileza.

Alice Haspray começou sua prática de meditação zen com Shunryu Suzuki Roshi, em 1969. Após a morte de Suzuki Roshi, em dezembro de 1971, ela e Richard, seu marido, tornaram-se estudantes de Trungpa Rinpoche. Alice vive atualmente em Halifax, Canadá, onde escreve e ensina. Também atua na Comissão de Shambhala sobre o Estatuto das Mulheres e do Princípio Feminino.

Trad. Carlos A. Inada

Trecho de “A galinha e o ovo”
Chögyam Trungpa
(Seleção: Alice Haspray)

Foto: Alice Haspray

Foto: Alice Haspray

[...]

Na prática sentada da meditação, existe abertura fundamental. De algum modo, estranhamente, existe também incerteza fundamental. Se nossa disciplina é completamente clara e sabemos o que estamos fazendo, então, não existe jornada. A incerteza que tem lugar na prática sentada da meditação é o princípio VAM. O princípio E é a atitude geral, a atmosfera geral que sempre está lá. Colocados juntos, são uma obra de arte completa, por assim dizer. A situação desoladora da vida é reunida [com essa incerteza]. Juntos eles apresentam nosso trabalho, nossa vida, nossa existência como algo que de alguma maneira é impelido para dentro do ensinamento.

Na tradição budista, a noção de renúncia significa perceber a verdade sobre o sofrimento e compreender quanto vimos nos enganando. Quanto temos sido cativados por nosso próprio lixo, por assim dizer. Nossa própria teia de aranha, nosso próprio emaranhado, vem nos aprisionando constantemente. E, quanto mais nos sentimos aprisionados, incapazes, caóticos e horríveis — isso é, na verdade, o espaço. Quer acreditemos ou não, isso é um fato. Quanto mais sentimos a claustrofobia, quanto mais sentimos que estamos entulhados, quanto mais nos sentimos completamente enredados por um congestionamento. Essas pequenas, ou mesmo grandes, coisas estão por toda parte. Somos envolvidos por essa situação e dela não podemos nos desmaranhar. Quando tentamos nos livrar de uma situação assim, temos de produzir ou manufaturar mais coisas a fim de nos livrarmos. E essas mesmas coisas começam a ficar no meio do caminho o tempo todo. Isso tudo é, na verdade, espaço, o princípio E.

Por causa disso, começamos a procurar algo diferente, outra situação parecida com o espaço, outras possibilidades refrescantes — e, incapazes de encontrar algo melhor, começamos a sentar e praticar, meditar. A prática da meditação começa a dar-nos alguma perspectiva: que a claustrofobia é o espaço, ou E; e a inspiração para trabalhar a claustrofobia são as possibilidades dinâmicas, ou VAM; assim, E e VAM são reunidos. A prática sentada da meditação é assim. É aparentemente muito simples, na verdade. É muito, muito fundamental, extremamente fundamental. O princípio geral é que existe sempre um contenedor e algo que é contido. Isso sempre está ocorrendo em qualquer tipo de prática, de acordo com o dharma do Buda.

[...]

Chögyam Trungpa, “The chicken and the egg”, capítulo de Glimpses of space: the feminine principle & EVAM. Halifax, Canadá: Vajradhatu Publications, 1999. © 1999 by Diana J. Mukpo. Seleção: Alice Haspray; trad. Carlos A. Inada.

“Súplica à linhagem materna”
Chögyam Trungpa

Foto: Alice Haspray

Foto: Alice Haspray

Prestamos homenagem à linhagem materna.
Teu manto está encharcado de água,
Teu cabelo é elegante e gracioso,

Teu perfume é raro.
De um grão de cevada caído na terra,
Por aparente acidente,
Brotou grande prosperidade.
Teu leite alimenta a nação.
Gostamos da lua crescente em teus cabelos.
Emulamos tua abertura e generosidade.
Falas suavemente, mas teu comando tem peso.
Por favor, não deixes de nos amar!
Nós nos banhamos dentro de um bosque de bambus.
Por favor, ajuda-nos a ser gentis e fortes!

Trad. Comissão de Tradução — Shambhala Brasil.

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