D h a r m a   o u   d r a m a:
a   a r t e   d e   s e r   q u e m   s o m o s

Rodrigo Bueno

Rodrigo Bueno na SPFW: “Smoking feminino risca-de-giz de Yves Saint-Laurent e o grafismo
da pintura corporal indígena Kaiapó-Xikrin do Cateté”
. Edição de Bruno Galan e Douglas Garcia.

A impermanência é a lei máxima da vida em eterno movimento. Tudo se transforma à nossa volta, enquanto a morte e a vida, faces da mesma moeda, regem nossos sentidos diante do terror e do encantamento. Essa dança dual nos leva constantemente a reinventar nossa relação com o planeta, e com nossa própria percepção.

No dia em que completei 27 anos, a morte entrou sem bater à minha porta, e levou, na ponta de uma bala de metal, o meu irmão mais velho. Me dei conta da fragilidade da vida, e busquei saber o que me fazia ficar em pé naquele momento.

Em meio ao meu desamparo, deparei-me com a visão de um pequeno fio luminoso, alinhado em minha espinha, ligado entre o céu e a terra. Me agarrei a essa imagem sutil como um contrapeso momentâneo, mediante a ironia de que, um dia, minha própria morte será inevitável.

Daquele vazio revelou-se um conteúdo, ou seja, a vida em mim contida era um potencial a ser dinamizado, desdobrado em toda sua complexa manifestação e significado.

A partir daí, corri minhas gavetas atrás de algum sentido para afirmar meu presente. Sintonizei com a vida que fluía na fonte de minha criatividade. Vendi tudo o que tinha e investi na inversão do meu diploma em comunicação em uma pós-graduação em artes, e saí atrás de mim mesmo.

Depois de muitos anos como pintor decorativo, optei pela escola crítica em uma pós-graduação em artes visuais na School of Visual Arts, em Nova York. Ativa no mercadão de arte, a faculdade brilhava como o alvo certeiro. Porém, a ilusão se revelou no despreparo do ambiente e no respaldo dos comentários. O estudo do processo pessoal buscava cegamente a construção de um formador de idéias geniais, com promessas de um vocabulário de vernissage. O programa nos conduzia em direção à busca de criações originais, recheadas de citações de celebridades, cifras e petulância.

A compensação foi que, durante a espera do começo do semestre, cursei quatro meses de religião comparada na The New School University. O estudo das tradições asiáticas me seduziu a ponto de me fazer freqüentar palestras de mestres budistas, entre o impacto do potencial do lixo das ruas e a simbologia atemporal alquímica. Os horizontes finalmente se alargavam. Não deu outra. Depois de três semanas na Índia, decidi me mudar da Big Apple para San Francisco. Encontrei em meio à natureza avassaladora da Bay Area um valor humano em outra dinâmica espacial, uma distinta energia coletiva de assimilação da vida. Foi então na Califórnia, paralelamente a outra pós-graduação, desta vez em artes e consciência, que me decidi por um treinamento de meditação chamado Aprendizado Shambhala. Pois já não bastava ler, a experiência determinava o entendimento.

Pela primeira vez me deparei com práticas meditativas e teorias expansionistas da percepção. Além das mesas espíritas e passes magnéticos. Desta vez o conhecimento chegou dissociado da experiência mística, veio em plena clareza argumentada e objetiva.

O livro Dharma/arte: a percepção verdadeira, foi, particularmente, um grande encontro. Chögyam Trungpa Rinpoche, seu grande difusor, determinou que dharma/arte não se aprende, se descobre; não se ensina, cria-se um ambiente para que seja descoberta. E assim tem sido. Tal encontro foi somente um anúncio de um processo em constante evolução.

Dharma/arte é uma compilação de palestras de tradição milenar, proferidas dentro do programa de artes do Instituto Naropa (atualmente, Naropa University). É um arsenal de ensinamentos que, associados à meditação, ajudam a transcender o drama materialista, através de ferramentas para a redescoberta do nosso cotidiano, usando a ótica do dharma, traduzido como a verdade, a ordem natural à qual todos somos subordinados.

Dharma/arte é a atitude criativa que é fruto do estado desperto meditativo. Despretensiosa e direta, é a expressão que surge da união criativa entre o artista e o público. Nela, a não-agressividade convida ao senso de humor que corta as fronteiras entre o eu e o outro, e a intuição brota como luz de valores fundamentais, inerentes a nossa natureza, como a elegância, a noção espacial e a bondade. A ponto de notarmos as coisas como elas são, em sua extraordinária capacidade de desdobramento de símbolos e linguagens.

Gradualmente comecei a perceber a qualidade ativa da contemplação. O exercício fez aflorar uma sensibilidade de dentro pra fora. Com a mudança de foco no self, a prática traz a passagem para o absoluto. Enquanto apreciamos o cotidiano — como lavar louça, esperar o trem, ou limpar a casa —, a consciência desses atos simples desacelera a vida, refinando assim o olhar, e a expressão artística contamina o dia-a-dia.

Descobri que os olhos vêem muito mais do que a mente pode perceber. Se deixarmos de lado tantas projeções mentais, naturalmente prestaremos mais atenção aos detalhes. Uma vez que o ego é deixado de lado, a percepção do simbolismo absoluto aflora, nos deixando ver o notável redimensionamento do mundo interno e o seu reflexo à nossa volta.

Trungpa insiste que o artista, além da meditação, deve propor-se ao desenvolvimento técnico e ao respeito ao legado da tradição. Sem o exibicionismo racional e tecnocrata, responsável pelos males do nosso tempo.

O medo da morte, reafirmado todos os dias em meio às banalidades da vida materialista, nos convida a um vazio existencial disfarçado de atitudes agressivas e fantasias de superioridade individual. Os fundamentos desse terror à impermanência da vida, o medo do fim do nosso corpo, conseguem ser anulados somente através da prática meditativa. Agora, como se sustenta essa disciplina incômoda de silêncio, foco e domínio dos pensamentos?

A atenção à respiração, esse movimento involuntário ligado à manutenção da vida, em seu ritmo, parece situar o individuo dentro do corpo. A consciência desse mecanismo pode servir como uma boa espreguiçada mental. Relaxado, o artista está apto a começar uma obra diante do dilema da tela branca, ou da pedra bruta.

A não-agressão é um processo orgânico, diferente de uma disciplina ou código moral. Não-agressividade é ver através da agressão, enquanto se percebe que há mais maneiras de ser ativo e eficiente, além da agressividade. Isso é realizar um novo ângulo de energia.

A atitude contemplativa, que nos ajuda a perceber a interconexão dos elementos e a interdependência das formas de vida, se revela em diversos mecanismos da simplicidade do dia-a-dia. Dharma/arte não se restringe ao repertório de elementos orientais. Por onde passou, Trungpa se familiarizou com uma rede de influências de linguagem e tradições. Sua base é o aqui e o agora, certo de que há lucidez na cultura global.

Dharma/arte nos faz o contraponto à vida ocidental, pontuada pelo drama de escolhas imediatistas e tendências escapistas da realidade. A diáspora tibetana presenteou o mundo com o vasto conhecimento e habilidade de seus mestres. Sua sabedoria inclusiva promove a assimilação de outras tradições, partindo de conceitos básicos da percepção humana para a construção de um mundo de sentidos integrados. Vivemos um momento único. Enquanto alguns continuam a guerrear, outros se abraçam para a cura espiritual e psicológica através da sabedoria adquirida e o amor complementar. Em meio à familiaridade com a perda e a morte, a resistência cultural, renovadora e criativa, se afirma na constante revelação de sentidos e esperança.

Podemos ser ativos ao cuidar do planeta, ao rir de nós mesmos enquanto trabalhamos a desconstrução de nossos egos e experimentamos a arte de ser quem somos.

Texto publicado originalmente na revista mag!, abril de 2007, reproduzido e editado com autorização do autor.
Rodrigo Bueno: www.mataadentro.com.br. Vídeo: Pintura/instalação/performance ao vivo de Rodrigo Bueno (MATA ADENTRO) para a C&A. Realizada na São Paulo Fashion Week em junho de 2009. Tema: “Smoking feminino risca-de-giz de Yves Saint-Laurent e o grafismo da pintura corporal indígena Kaiapó-Xikrin do Cateté: a constante expansão da mata urbana sobreposta em pinceladas, serigrafias, colagem, planrtas e objetos de madeira”. Materiais: tinta acrílica, xilogravuras, madeiras, cipós e serigrafia. Fotografia: Douglas Garcia; música: DJ Periférico para o Z’áfrica Brasil; edição: Bruno Galan e Douglas Garcia; agradecimentos: Artista Rubens Espírito Santo, Mestre Flávio Camargo do Ateliê do Centro, Artista Nilva Campedelli.


Foto: Andrea Roth.
Foto: Andrea Roth

“A descoberta da elegância”
Chögyam Trungpa

[...] Dharma/arte não significa que deveríamos ser artistas, que deveríamos pintar muitas pinturas, compor música, ou pelo menos tocar. E não significa que deveríamos desenvolver alguma fruição da beleza. Aparentemente há uma situação problemática aqui, e exatamente o mesmo acontecia no Tibete. [...] A questão é: como vamos organizar nossa vida a fim de que possamos produzir coisas bonitas, não à custa dos outros, nem do sofrimento deles? Esse parece ser o ponto fundamental, de uma perspectiva prática. Então há algo além disso, que é todo o conceito de arte, ou dharma/arte. Trata-se de descobrir a elegância e dharma/arte,  e estes podem ser dois assuntos um pouco diferentes. Dharma/arte vem primeiro; descobrir a elegância pode vir depois. Então dharma/arte não é exibição de habilidades, ou ter algum talento que ninguém jamais teve, uma ideia que ninguém teve antes. Em vez disso, o principal ponto de dharma/arte é descobrir a elegância. E essa é uma questão de estado da mente, de acordo com a tradição budista.

Neste ponto, estou falando dos artistas, mais do que dos observadores da arte. Tradicionalmente, produzir e fabricar arte é um processo longo e árduo. Por exemplo, para fazer uma pintura, alguém tem de triturar a pedra de vermelhão a fim de fabricar a cor vermelha; alguém tem de colher folhagens a fim de fazer o verde; alguém tem de trabalhar com os sedimentos de uma caverna e triturá-los a fim de fazer o azul; alguém tem de colher sedimentos na terra a fim de fazer o alaranjado. Alguém tem de trabalhar com a fuligem que sai da seiva ou da casca das árvores para fazer tinta. Tudo é feito dessa maneira. Antes que comecem seu extravagante trabalho como artistas, vocês têm de conhecer a dor e a miséria, ou talvez negá-las, envolvidas na produção de uma tal obra de arte. Tomem o exemplo das flores que usamos no arranjo floral. Elas não vicejam no céu para que Deus apenas as jogue para nós. Precisam de terra, solo, muito adubo, e da proteção do clima, de modo que finalmente temos um belo cristântemo, belos íris. Do ponto de vista norte-americano moderno, alguém pode apenas ir até uma loja, comprar coisas e trazê-las. Essa não é uma boa atitude, e muito menos elegância. As pessoas têm de saber como as coisas são feitas e produzidas, como, enfim, elas são tão belas, tão graciosas. Uma vez que algo chega a seu apogeu, a sua fruição, temos a tendência de negligenciar isso. Mas, com isso, estamos começando com a primavera, sem ter passado por um verão, e muito menos por um outono. Estamos muito distantes da colheita. Posso dizer isso com certeza. Quer você seja um artista maior, que já fez o seu nome e deu uma boa contribuição para o mundo, quer esteja no nível do principiante, temos de saber como é difícil começar tudo isso. Temos de trabalhar em conjunto com os níveis da base, do caminho e da fruição. Isso não é particularmente uma coisa fácil de fazer.

Temos realmente de abandonar a idéia de que, se estamos na estrada há muito tempo e estamos cansados e uma placa diz: “Restaurante, quartos, blablablá”, podemos virar e entrar em um hotel, dormir, comer, descansar e continuar no dia seguinte. Nem sempre podemos usar nosso mundo dessa maneira. Temos de ter algum respeito pelas pessoas que trabalham duro em tais situações. Não podemos simplesmente dizer: “As coisas vão bem, são convenientes; portanto, tenho de tirar vantagem delas, enquanto tiver dinheiro”. [...]

O mundo medieval produziu obras de arte fantásticas, como vocês sabem: música, pintura, instrumentos, tudo. No mundo medieval, alguns dos maiores artistas apenas se tornaram conhecidos como grandes artistas após morrerem, porque enquanto eram vivos estavam trabalhando organicamente, tentando juntar as partes. Quando sobrevinha a fruição de seu trabalho, ficavam contentes e satisfeitos; mas, ao mesmo tempo, sua energia se esgotara e morriam. Assim, muito embora vocês possam ter talento bem cedo na vida, como Mozart, não obstante isso, a arte ainda é um processo manual. Tudo tem de ser manual e realista. Então descobrimos a elegância e a beleza, porque começamos a perceber quanta energia e quanto empenho são necessários para manufaturar ou exibir o melhor do melhor. Isso é necessário para que tenhamos música ou pinturas surpreendentes no nível da fruição. Não temos esse direito no começo.

Se queremos nos tornar artistas e queremos ter o melhor de tudo, não podemos apenas ter. Temos de começar prestando atenção à realidade. Precisamos aprender a comer da maneira apropriada, cozinhar adequadamente, limpar a casa ou o quarto, lidar com nossas roupas. Precisamos trabalhar nossa realidade fundamental. Então vamos além, e começamos a ter algo muito mais substancial. Mais adiante, começamos de fato a produzir um grande mundo artístico. [...] O caminho é longo e árduo; não nos tornamos repentinamente bons em algo. É claro, é possível que de um dia para o outro surjamos com uma bela engenhoca, uma boa idéia; no dia seguinte a patenteamos e começamos a manufaturá-la, e de repente nos tornamos multimilionários. Isso pode acontecer. No entanto, não vemos isso como a verdadeira maneira de fazer as coisas. Estamos nos desviando de muito treino, muita disciplina, muita realidade. E frequentemente, quando as pessoas produzem uma boa obra de arte dessa maneira e ganham muito dinheiro de repente, terminam cometendo suicídio, mortas. Como Marilyn Monroe.

Temos de ser honestos, verdadeiros e muito práticos; e precisamos realmente apreciar as coisas como são. Elas já são tão belas e maravilhosas, mas para apreciar isso é preciso tempo e disciplina — muita disciplina.

No final da década de 1970, Chögyam Trungpa encorajou a criação de uma companhia de cinema chamada Centre Productions, em Boulder, Colorado. Com a Centre Productions, dirigiu e filmou A descoberta da elegância, que documenta o processo de montagem de uma elaborada instalação ambiental. Em suas primeiras reuniões com a equipe da Centre Productions, Trungpa discutiu os princípios de dharma/arte aplicados à filmagem e à instalação, reunidos no texto “A descoberta da elegância”, parte do livro Dharma/arte: a percepção verdadeira.

Foto: Rodrigo BuenoFoto: Douglas Garcia

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Dharma ou drama | 2009 | Uncategorized | Tags: , , , , | Comente




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